segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Quatro anos depois

Quatro anos atrás, mais ou menos eu escrevi um texto. Ainda está aqui nesse blog, não quis apagar. Mudei pouca coisa até, só aquilo que achei que estava ridiculamente incorreto ou ofensivo. O resto está lá, do mesmo jeito que foi escrito há quatro anos atrás.
Encontrei esse texto hoje, de novo, sem querer, enquanto mexia aqui e me surpreendi, muito mesmo, com aquilo que eram meus pensamentos na época. Não eram mal intencionados ou burros, mas um tanto mal orientados. Mas me surpreendeu ainda mais a veemência das minhas palavras. A ignorância profunda que fundamentava minha certeza tão absoluta. E esse texto agora é uma reflexão sobre isso.
Acho que já tem bastante tempo que procuro defender a bandeira das liberdades individuais. Eu sou um, talvez iludido, crente da verdadeira beleza da natureza humana e acho que se existem pensamentos que fazem com que as pessoas neguem sua verdadeira natureza (e elas negam, de si mesmo e dos outros) é porque foram plantados nas nossas cabeças. Não vou entrar aqui em discussões sobre moralidade nem nada assim porque não é meu propósito aqui, mas o importante está em como vi essa moralidade dando peso às minhas próprias palavras, com valores que nem sequer eram meus de verdade. Aliás, em uma minha linha em particular, e com a ideia de carregar minha opinião de autoridade, eu defini a mim mesmo com três palavras que hoje vejo como estão distantes daquilo que eu realmente sou. As três palavras, apaguei porque ofendiam a mim mesmo, mas a ideia que eu defendi deixei lá, como aprendizado, quem sabe.
Cada parágrafo era um golpe contundente de certeza sobre, justamente, liberdade individual. Só que aos meus olhos de hoje, cada um desses golpes tristemente diminuía a importância da essência do espírito humano em função da defesa do bem coletivo. E aí que eu vejo como quatro anos podem mudar uma pessoa. Pelos menos esses últimos quatro me mudaram bastante.
Me mudaram porque me fizeram ver que não vai existir bem coletivo enquanto aquilo que for individual de cada um não for respeitado. Que tem brigas e gritos que precisam sim ser dados, porque estão oprimidos há tempo demais. Eu tinha muito a ideia de que a imprensa e as mídias nos manipulavam (e manipulam sim) criando distrações (e criam sim). Mas o problema é que até dentro de mim existiam pensamentos plantados e ideias oprimidas que me faziam diminuir a importância das lutas que acontecem no mundo lá fora, que eram tão importantes.
Não acho que em linhas gerais meu texto estava errado porque eu defendia sim que cada um tem que tomar conta da sua própria vida e parar de ficar julgando a dos outros, e usar essa energia pra brigar por coisas boas pra todo mundo. Mas hoje é tão claro pra mim que tem tanta gente sendo julgada, humilhada, ridicularizada, simplesmente por ser do jeito que nasceu, que é preciso sim brigar, gritar basta. Se sua religião, seus valores morais ensinam a se portar de um jeito, parabéns, mas faça isso de uma forma que não interfira na vida de mais ninguém. E não, você NÃO tem o direito de achar que o outro está errado, se ele não estiver interferindo na vida de mais ninguém também. Você NÃO tem o direito de achar que a escolha do outro está errada quando essa escolha não tiver nada a ver com a sua vida. E você NÃO tem o direito de falar pra ninguém, no público ou em particular, que uma pessoa qualquer é menos que você em qualquer aspecto que seja só porque essa é sua crença.
Basicamente foi isso que fiz de errado, que pensei errado, justamente. De achar que cada um pode cultivar sua própria moral e usar dela pra julgar os outros. De ver como ideias moralistas imbecis, que na prática não fazem nenhum sentido, vão sendo passadas de geração em geração, incitando ódio e propagando ignorância. De novo, não acho que a ideia do meu texto estava errada porque era bem intencionada, mas minhas palavras de certa forma legitimaram pensamento e opiniões que agridem outras pessoas, em nome da liberdade de expressão ou algo assim. Não, não penso mais assim. E peço desculpas por ter pensado. Peço desculpas ao mundo por ter concordado com ignorâncias e a mim mesmo, por ter me proibido de ser quem eu realmente sou. Prometo que aquelas 3 palavras não vou usar nunca mais pra falar de mim mesmo.
Esse é um texto curto, basicamente um pensamento. E talvez seja abstrato demais pra passar algo pra qualquer outra pessoa. Mas pra mim, talvez, seja a coisa mais importante que já escrevi.

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