segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Quatro anos depois

Quatro anos atrás, mais ou menos eu escrevi um texto. Ainda está aqui nesse blog, não quis apagar. Mudei pouca coisa até, só aquilo que achei que estava ridiculamente incorreto ou ofensivo. O resto está lá, do mesmo jeito que foi escrito há quatro anos atrás.
Encontrei esse texto hoje, de novo, sem querer, enquanto mexia aqui e me surpreendi, muito mesmo, com aquilo que eram meus pensamentos na época. Não eram mal intencionados ou burros, mas um tanto mal orientados. Mas me surpreendeu ainda mais a veemência das minhas palavras. A ignorância profunda que fundamentava minha certeza tão absoluta. E esse texto agora é uma reflexão sobre isso.
Acho que já tem bastante tempo que procuro defender a bandeira das liberdades individuais. Eu sou um, talvez iludido, crente da verdadeira beleza da natureza humana e acho que se existem pensamentos que fazem com que as pessoas neguem sua verdadeira natureza (e elas negam, de si mesmo e dos outros) é porque foram plantados nas nossas cabeças. Não vou entrar aqui em discussões sobre moralidade nem nada assim porque não é meu propósito aqui, mas o importante está em como vi essa moralidade dando peso às minhas próprias palavras, com valores que nem sequer eram meus de verdade. Aliás, em uma minha linha em particular, e com a ideia de carregar minha opinião de autoridade, eu defini a mim mesmo com três palavras que hoje vejo como estão distantes daquilo que eu realmente sou. As três palavras, apaguei porque ofendiam a mim mesmo, mas a ideia que eu defendi deixei lá, como aprendizado, quem sabe.
Cada parágrafo era um golpe contundente de certeza sobre, justamente, liberdade individual. Só que aos meus olhos de hoje, cada um desses golpes tristemente diminuía a importância da essência do espírito humano em função da defesa do bem coletivo. E aí que eu vejo como quatro anos podem mudar uma pessoa. Pelos menos esses últimos quatro me mudaram bastante.
Me mudaram porque me fizeram ver que não vai existir bem coletivo enquanto aquilo que for individual de cada um não for respeitado. Que tem brigas e gritos que precisam sim ser dados, porque estão oprimidos há tempo demais. Eu tinha muito a ideia de que a imprensa e as mídias nos manipulavam (e manipulam sim) criando distrações (e criam sim). Mas o problema é que até dentro de mim existiam pensamentos plantados e ideias oprimidas que me faziam diminuir a importância das lutas que acontecem no mundo lá fora, que eram tão importantes.
Não acho que em linhas gerais meu texto estava errado porque eu defendia sim que cada um tem que tomar conta da sua própria vida e parar de ficar julgando a dos outros, e usar essa energia pra brigar por coisas boas pra todo mundo. Mas hoje é tão claro pra mim que tem tanta gente sendo julgada, humilhada, ridicularizada, simplesmente por ser do jeito que nasceu, que é preciso sim brigar, gritar basta. Se sua religião, seus valores morais ensinam a se portar de um jeito, parabéns, mas faça isso de uma forma que não interfira na vida de mais ninguém. E não, você NÃO tem o direito de achar que o outro está errado, se ele não estiver interferindo na vida de mais ninguém também. Você NÃO tem o direito de achar que a escolha do outro está errada quando essa escolha não tiver nada a ver com a sua vida. E você NÃO tem o direito de falar pra ninguém, no público ou em particular, que uma pessoa qualquer é menos que você em qualquer aspecto que seja só porque essa é sua crença.
Basicamente foi isso que fiz de errado, que pensei errado, justamente. De achar que cada um pode cultivar sua própria moral e usar dela pra julgar os outros. De ver como ideias moralistas imbecis, que na prática não fazem nenhum sentido, vão sendo passadas de geração em geração, incitando ódio e propagando ignorância. De novo, não acho que a ideia do meu texto estava errada porque era bem intencionada, mas minhas palavras de certa forma legitimaram pensamento e opiniões que agridem outras pessoas, em nome da liberdade de expressão ou algo assim. Não, não penso mais assim. E peço desculpas por ter pensado. Peço desculpas ao mundo por ter concordado com ignorâncias e a mim mesmo, por ter me proibido de ser quem eu realmente sou. Prometo que aquelas 3 palavras não vou usar nunca mais pra falar de mim mesmo.
Esse é um texto curto, basicamente um pensamento. E talvez seja abstrato demais pra passar algo pra qualquer outra pessoa. Mas pra mim, talvez, seja a coisa mais importante que já escrevi.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Entrega de poste

Interfone toca, seu João atende.
- Alô.
- Opa, bom dia! É o seu João da Silva?
- Sou eu. Quem é?
- Aqui é da Fábrica de Poste, viemos trazer sua encomenda.
- Fábrica de que?
- Fábrica de Poste, seu João.
Silêncio, por alguns segundos.
- Seu João, tá aí?
- Oi...
- Então, o senhor pode receber a encomenda?
- Que encomenda?
- O poste de luz de concreto, modelo residencial, que o senhor pediu pra gente?
- Mas que poste?
- Ué, seu João. Esse aí mesmo que eu falei.
Mais silêncio.
- Seu João?
- Oi.
- Ô seu João, seu interfone tá com problema? Acho que fica mudo.
- Não, tá funcionando sim.
Breve silêncio, dessa vez é o entregador que está confuso.
- Então tá. Como a gente faz, seu João? O senhor desce aqui pra receber, a gente deixa na área comum do prédio e o senhor vai lá ou a gente sobe aí com o poste?
- Mas que poste?!
- O seu poste de concreto, seu João! Como assim, que poste? O senhor pode receber, a gente tem outra encomenda pra levar e é meio longe.
- Mas eu não tenho nenhum poste!
- Não tinha, ué! Foi por isso que o senhor encomendou um, caramba. Tá aqui, é só instalar onde for pra instalar.
- E onde é que eu vou instalar um poste?
- Ué, seu João! Como eu vou saber? Foi o senhor que encomendou. Eu imaginei que o senhor já soubesse. As pessoas geralmente encomendam um poste por necessidade, já sabem onde precisa.
- Eu não preciso de poste!!
- Mas seu João, o senhor encomendou. Tá aqui prontinho. Como é que a gente faz?
- Eu não vou pagar por poste nenhum!
- Mas já tá pago, seu João!
Mais silêncio. Seu João respira pesado, confuso. O entregador, ouvindo, fica mais apreensivo.
- Seu João?
- Oi...
- Então, mas o poste...
- QUE POSTE???
- Ô, seu João, o senho acha que isso é alguma brincadeira? Nós somos uma empresa séria. A gente fornece poste residencial pra cidade toda. O senhor já viu os condomínios novos de luxo lá na Avenida Principal? Todos os postes lá são nossos!
- Então leva esse poste pra lá!
- Mas se o senhor comprou pra lá, porque mandou entregar aqui?
- Eu não compre poste nenhum.
Mais silêncio. Seu João e entregador estão os dois confusos e irritados.
- Seu João?
- Ai cacilda...
- Seu João, o que a gente faz? Se o senhor não vier receber a gente pede pro porteiro assinar e larga o poste na portaria, mas o senhor vai ter de dar um jeito de instalar no lugar depois.
- Que lugar?
- Eu sei lá, seu João. Isso é com o dono do poste!
- MAS QUE POSTE??
- O seu poste, caramba! Tá aqui, bonitinho, no caminhão, é só botar! O seu serviço inclui instalação, tá tudo pago, mas se o senhor não disser onde botar, a gente fica numa situação complicada aqui. Já pensou o coitado do zelador tendo que carregar esse poste depois?
- Carregar pra onde?
- Eu sei lá, seu João! O poste é seu, o senhor que deve saber onde vai botar.
- Eu moro num apartamento de dois quartos no sétimo andar, o que é que vou fazer com uma porcaria de poste?
- A gente achava que era pra área comum do prédio, né. Geralmente quando vem no nome do síndico, é pra área comum do prédio.
- Mas eu não sou síndico!
- Ué, então porque o senhor encomendou um poste?
- Eu não encomendei poste nenhum!
- Mas tá aqui, João da Silva, rua das Flores, 43, sétimo andar. Tudo pago já. Não é o senhor?
- Sou eu sim.
- Então o poste é do senhor sim.
- Leva esse poste embora daqui!
- Mas seu João, se eu volto com esse poste o dono da firma vai me dar a maior bronca. A gente não tem nenhum poste devolvido desde 2006. Nossos postes são de muita qualidade.
- Ai, caraca...
Mais silêncio. Só se ouve agora o ruído do interfone.
- Seu João?
- Oi, meu filho.
- E o poste?
- Enfia esse poste na orelha!
- Ô seu João, que grosseria desnecessária. Brincadeira de mau gosto. Quer saber, a gente vai largar o poste aqui na calçada e o senhor que se vire com ele depois.
- Se você largar esse poste aí eu chamo a polícia!
- Pode chamar, a nota fiscal tá aqui com a gente, com todos os dados da encomenda. Esse poste é seu, o senhor fica pedindo poste de brincadeira e depois não quer receber.
- Quem é que pede poste de brincadeira?
- O senhor!
- Eu vou descer aí e te acertar com esse poste na testa!
- Pois venha que eu tô esperando! Tá pensando que nunca participei de briga de poste?
Seu João desce irritado. O bate boca escala em baixaria. Murros e pontapés são trocados. Sobra até pro poste. Minutos depois chega uma viatura da polícia, leva Seu João e o entregador pra delegacia. O caminhão de entrega vai embora e o poste fica na calçada.
No prédio em frente, na rua das Flores 42, apartamento 701, um homem sentado com um binóculo observou toda a cena e riu como nunca, pensando que nunca desembolsou um dinheiro tão bem gasto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A máscara do preconceito cai de novo

Numa boa, ter opinião política é uma coisa e preconceito descarado é outra. Eu converso, eu brinco e debato com todo mundo e acho muito saudável. Aceito todo tipo de gente e procuro escutar todo tipo de opinião. Os únicos que me reservo a não aceitar são justamente os que não aceitam. Infelizmente estou tendo de desfazer amizades hoje e já adianto que alguém que poste ou fale qualquer coisa de separatismo, de "chega de sustentar o nordeste", de "vamos mandar os nordestinos de volta", de "bando de vagabundos", guerra civil ou qualquer coisa do gênero, você pode ser considerar fora da minha lista de amizades.
Este está sendo um dia particularmente triste pra mim, por ver como tem gente por quem eu já tive consideração, que eu já respeitei, que de repente, por causa do resultado de uma eleição, resolve destilar ódio contra seu próprio povo. Eu discordo de muita, muita coisa que acontece por aqui no Brasil, gostaria de ver um país muito diferente e confesso eu mesmo que as vezes tenho vontade de mandar tudo as favas e ir embora, mas nunca culpo o sangue brasileiro por isso. Nem nenhuma região, cidade, estado, povo ou seja lá o que for. Tem muita coisa que tem que mudar, e vai levar muito tempo, se é que algum dia mudará, mas odiar seu semelhante só nos bota mais longe disso.
Algumas considerações importantes seguem abaixo:
1 - Se você mora no sul, São Paulo, Rio, Minas ou seja lá onde for, e tem um sobrenome europeu, e tem raiva dos imigrantes nordestinos que vieram pra sua cidade, saiba que a sua família era FUDIDA na Europa. Veio pra cá fugindo da fome, da miséria e da perseguição e conseguiu nesse país, que se destaca do resto do mundo por receber todo tipo de gente de braços abertos, uma nova oportunidade. Igualzinho os nordestinos que vieram por décadas tentar uma vida melhor pelas suas bandas.
2 - Você, branco, classe média, que não quer mais sustentar vagabundo, que teve que ralar e estudar pra conquistar o que tem, parabéns. Agora tenta passar 6 meses morando no sertão, ralando na seca pra conseguir ganhar em um ano o que você ganha hoje em um mês, sem ter tido sequer uma escola pra estudar, que dirá uma escola boa. Depois disso a gente conversa. Ou melhor, faz assim: pergunta pro seu avô ou bisavô imigrante, porque ele passou por isso. Ele viveu no roçado, ganhou mal e apanhou da vida. Você ganhou o direito de estudar, teve comida na mesa e pôde se preparar pra conquistar o que tem. Você tem seus méritos sim, mas precisa aprender a dividir e a ajudar quem está sofrendo, porque tem muita gente que nunca pôs o pé numa escola simplesmente porque não pôde. Rotular de vagabundo e largar pra morrer não transformam você num idealista político neoliberal e sim num nazista.
3 - Governo não é lugar de valores religiosos ou da sua moral pessoal. De novo, olhe pra sua família imigrante que você vai encontrar gente que largou a Europa do começo do século XX porque lá não podia ser comunista, lá não podia ser gay, lá não podia ser judeu, lá não podia ser cigano, lá não podia nada. Não sobrou escolha senão ir embora pra uma terra onde se pudesse sonhar com mais liberdade. E agora você, seu banana, quer censurar quem é diferente sem nem lembrar da barra que sua própria família passou.
4 - Me explica por favor qual foi o nordestino, o preto ou gay que fez sua vida ficar pior. Porque estou vendo todo mundo viajando, todo mundo com emprego, todo mundo curtindo a vida, consumindo como nunca. E aí de repente porque o resultado de uma eleição não foi o que você queria, seu mundo inteiro caiu e você vai culpar o próprio povo?
5 - O Brasil pode ter muitos defeitos, mas as eleições diretas não são um deles. Eu mesmo moro no estado que elegeu ao mesmo tempo Jair Bolsonaro e Jean Willys. Se isso não é democracia, eu não sei o que é. Não gostou do resultado da eleição? Ótimo! Proteste, fiscalize, tome conte, vá pra rua. Mas não faça o Brasil menor com seu preconceito. Faça o Brasil maior e mais justo. Xingar no facebook não é exercício político, tudo que você consegue com isso é magoar gente que costumava te achar legal.
Não sou PT nem PSDB, acho o sistema político do Brasil um verdadeiro carnaval, mas sou Brasileiro. Sou Brasileiro nascido em São Paulo, criado no Rio, com sangue português, com sangue negro, com sangue nordestino, tudo misturado como deve ser nesse país. E se você quer um país menor, menos diverso, com menos culturas, etnias, então sugiro fazer as malas e ir pra terra de onde sua família veio. Só não esquece que então o imigrante será você.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Em cima da hora

- Vai dar tempo, vai dar tempo!
Tinha que dar tempo, era o último dia pra buscar o documento. A viagem era no fim de semana e ele precisava levar esse documento a todo custo.
- Tenho 20 minutos ainda, vai dar, vai dar. Tá tranquilo!
Ele pisava fundo, desviava do trânsito e cortava todo mundo no caminho. Buzinava pra qualquer carro que andasse devagar ou inconvenientemente parasse por qualquer motivo. Afinal, ele só tinha 20 minutos pra chegar lá e o trânsito nesse horário não era fácil. Sexta-feira então era pior ainda.
Pegou o celular:
- Zé, sou eu. Avisa lá na contabilidade que eu estou a caminho, já tô chegando na repartição pra pegar o papel. Vê se eles tem como segurar lá mais uns 15, 20 minutos pra eles carimbarem.
- Ih, rapaz. Você sabe que eles são meio complicados com isso. O gerente lá fica pau da vida quando chegam com trabalho em cima da hora, que dirá depois da hora.
- Mas ele sabe que isso é importante. A matriz precisa disso ratificado lá na segunda-feira e o único jeito disso acontecer é se eu levar nesse fim de semana.
- Ok, eu aviso. Boa sorte aí.
O Zé resmungou "pior que quem vai levar a bronca sou eu..." e não deu outra, levou bronca quando ligou pro gerente da contabilidade. Era melhor que o papel não atrasasse.
Sem saber de nada disso, ele corria desesperado pelo trânsito. Avançava sinais e era multado sem nem se dar conta. Faltavam agora só 10 minutos, mas ele já estava perto, faltavam poucos quarteirões. O desafio agora era achar uma vaga. Ele descia a avenida voando, olhando para os dois lados. Na aflição, passou por umas três vagas sem nem perceber. Passou direto pela porta da repartição, foi até o fim da avenida e na última esquina encontrou uma brecha, bastante apertada e do outro lado da pista.
Parou e sem nem sinalizar, na primeira oportunidade que teve, arrancou atravessando a pista. Só ouviu as buzinas dos carros que desviavam. Palavrões e ameaças preenchiam o ar. "Quer morrer, filhadaputa??" foi a coisa menos agressiva que ele ouviu. Mas chegou do outro lado.
Dessa vez sinalizou, e manobrou pra entrar na vaga. O espaço era muito pequeno, precisou ir e voltar várias vezes. A cada ida, uma encostada no carro da frente, e a cada volta tirava fino da moto atrás. A pressa não ajudava e ele, afoito, tentando concluir a manobra, acabou derrubando a moto. Só ouviu o barulhos de coisas se estilhaçando. Nervoso, chegou pra frente muito rápido e acabou quebrando a lanterna do seu carro no para-choque do carro da frente.
Não dava tempo de ver nada disso agora. Era preciso correr. De repente o motoqueiro anotava a placa e ia atrás dele depois. Ele saiu em disparada do carro, atravessando a avenida no meio do trânsito. Mais buzinas e palavrões. Faltavam só 5 minutos e ele precisava correr dois quarteirões. No caminho tropeçou num fradinho e caiu de cara no chão. Levantou, ralado e sangrando, paletó sujo, mas tinha de continuar correndo. Ainda derrubou uma velhinha, mas só conseguiu gritar "desculpa!!" e continuar disparado.
Chegou na repartição faltando 2 minutos, o segurança já estava fechando o portão. Ele passou batido pelo espaço que restava, sem nem dizer nada, e num pulo entrou voando pela janela do salão de atendimento. Mais uma vez se esborrachou no chão. Atônito, o último atendente que ali restava perguntou "tudo bem com o senhor?" mas ele nem respondeu. Ofegante, sem conseguir articular nada, apenas entregou o canhoto para retirar o documento.
O atendente foi até o armário, pegou o documento e o entregou. Ele havia conseguido, em cima da marca. Pegou o documento, esbaforido disse "obrigado" e saiu pela mesma janela em que entrou. Atravessou o portão com calma, desejou boa noite ao segurança como se nada demais tivesse acontecido e voltou pra rua. Mas logo lembrou que ainda tinha de voltar para o escritório e que o tempo agora estava mais curto ainda.
Saiu correndo novamente mas no fim do quarteirão avistou uma multidão. 
- É o bandido que atacou essa senhora.  Pega!
Dividido entre a presa e o amor a vida, não soube pra onde correr. Em frente ia apanhar,  pra trás ia se atrasar mais e botar o emprego em risco. 
Na dúvida correu pro meio da pista, tentando desviar do trânsito de novo. Mais buzinas e palavrões, mas o que importava era chegar no carro antes do povo enfurecido.  Até conseguiu, mas encontrou seu carro completamente vandalizado, provavelmente pelo dono da moto, , que já não estava mais lá. 
Todos os vidros quebrados, espelhos arrancados e lataria toda amassada. Por um lado era até vantagem,  pois ele pôde pular pra dentro do carro pelo buraco antes preenchido pelo para-brisa. 
Deu a partida tão rápido quanto conseguiu,  enquanto a multidão envolvia seu carro.  Arrancou abrindo caminho pelas pessoas mas ainda levou um soco na cara,  afinal não teve como fechar os vidros pra se proteger. Atordoado seguiu em frente sem pensar duas vezes. O resto resolveria depois, agora tinha de conseguir levar o documento para conseguir o carimbo da contabilidade. 
Naturalmente ele mal se dava conta de que estava dirigindo um carro destruído, estava sujo,  descabelado, com o olho inchado e nariz sangrando. Mas uma  patrulha policial pela qual passou no caminho percebeu bem essa situação e saiu em perseguição. 
Logo adiante ouviu a sirene da polícia e pensou "não acredito, só faltava essa". Encostou o carro, olhou pra trás e viu a patrulha parando também. Agora teria de esperar. 
Ficou sentado, desesperado,  contando os segundos  aguardando pelo policial que parecia demorar uma eternidade.  De fato foram alguns minutos enquanto o guarda se comunicava com a central até de fato o abordar. 
Quando o policial parou em pé ao lado do carro,  ele mesmo já começou a conversa, na tentativa de acelerar o processo. 
-Boa tarde, policial.  Algum problema? 
- É piada isso? Esse carro não está em condições de circulação.  E obviamente o senhor também não. O senhor me passe os documentos por favor e aguarde enquanto eu chamo um reboque. 
Sem alternativa,  obedeceu. Era melhor nem tentar explicar, porque se o guarda descobrisse o incidente da velhinha,  isso não iria acabar bem.
Ficou sentado ao volante esperando enquanto via o policial sem muita pressa voltar para sua viatura,  analisando os documentos e falando no rádio. 
Então ele pensou consigo mesmo que já tinha vindo até aqui,  faltava tão pouco.  Tinha de pelo menos tentar salvar sua carreira, já que o carro, a integridade física e a dignidade estavam comprometidas. Num impulso ligou o carro e arrancou.  Sabia que o guarda ainda demoraria alguns momentos até conseguir sair atrás.  Se conseguisse entrar na empresa antes de ser alcançado, poderia se isolar lá em segurança e passar o problema pra o advogado resolver. 
Ele agora voava pelas ruas,  ouvindo ao fundo a sirene soando cada vez mais perto. Descia pela avenida em uma velocidade absurda,  mas já via o prédio da empresa chegando.  Era só conseguir entrar na garagem. Numa manobra arriscada, desviou de um ônibus na pista do canto ao mesmo tempo em que embicava na entrada da veículos.  Bateu com tudo no portão fechado. Havia esquecido que depois do expediente a segurança trancava as entradas de automóveis. O carro, que já estava em mau estado, agora tinha virado sucata. E seu corpo foi no mesmo caminho, depois da forte pancada.
Cambaleante, saiu do carro, meio trôpego e confuso. Trocava passos em direção à entrada social do prédio. Estava completamente zonzo depois da batida. Sentida dores no corpo todo. O documento, na sua mão direta, agora estava amassado e sujo de sangue. Mas faltava pouco. Ele ia conseguir. Fez um tremendo esforço para subir as escadas da entrada. Passo atrás de passo, a dor que sentia era horrível, mas a sensação de missão cumprida o empurrava pra seguir adiante. Estava agora diante da porta principal. Sorriu. Tudo ia valer a pena, bastava passar daquele portal.
De repente, numa pancada violenta, foi derrubado no chão. Era o policial. Ele foi imobilizado, algemado e ainda ganhou umas bordoadas só pelo desaforo. Dali, ele foi levado pra delegacia, onde acabou ficando hospedado por alguns dias. E lá mesmo no xadrez, na segunda de manhã, quando deveria estar na reunião na matriz, soube por seu advogado de que havia sido demitido. Afinal, o documento não havia sido entregue, conforme necessário.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

De eleições, democracia e civilidade

Sobre a descompensação emocional que rege o debate político hoje em dia, queria dar minha opinião. Estamos vivendo uma divisão com nervos a flor da pele, metade do país numa causa, metade na outra e as metades com raiva uma da outra. Acho oportuno que façamos uma reflexão.
Não quero usar esse espaço pra discutir política, partido ou candidato, nem muito menos ideologias. Eu tenho as minhas sim, tenho meu candidato sim, e todo mundo tem a suas. As pessoas só falam disso, aliás. Acho que o grande mal nesse momento é estarmos fixados nos extremos dessas ideologias, criando um clima de inimizade, sem pensar muito na democracia. Um candidato tem uma visão social mais conservadora e uma visão de mercado mais liberal. O outro tem uma visão mais prioritária na igualdade social, mas com medidas de maior controle de mercado. Mas não estamos falando de American Way of Life contra Stalinismo, pelo amor de Deus! Ambos são partidos moderados, com compromissos de governo e quem quer que ganhe, pode até fazer mudanças, mas vão ser mudanças graduais e dosadas, ninguém vai virar o país de cabeça pra baixo.
Claro, temos que debater sim, temos que conversar sobre propostas, mas até os próprios candidatos já partiram pra baixaria absoluta. Acho que é hora da gente parar um pouco, tirar o pé do acelerador e lembrar de como funciona a democracia.
Democracia, ao contrário do que muita gente pensa, não é "a maioria manda e o resto se submete". Não, democracia quer dizer governo do povo, e o povo quer dizer todo mundo. A maioria indica sim o presidente, mas o presidente não governa sozinho. O presidente depende de formar um governo e nesse sentido, cá entre nós, estamos na frente dos EUA, com seu sistema bipartidário, e mais próximos das sólidas democracias da Europa. Formar um governo no Brasil quer dizer dialogar com diversos partidos, diversos pontos de vista e chegar em consensos. Um presidente não pode chegar e jogar pro alto tudo que o outro fez. O presidente tem que falar com o congresso, formar bases e nas bases existem todos os tipos de pontos de vista e interesses. E hoje temos um congresso particularmente rachado também, então o próximo presidente de fato não poderá ser extremo em direção nenhuma.
Além disso, numa democracia como a nossa, temos a liberdade de acreditar no que quisermos e apoiar quem quer que seja, e isso não nos faz melhor nem pior que ninguém. Esse negócio de generalizar ignorância do eleitorado de qualquer um dos lados é extremamente prejudicial, nos impede de chegar em acordos. Democracia não é só falar, é ouvir também, e aceitar o outro como ele é. A gente não pode e não deve julgar a decisão dos outros e sim tentar entender o que ele vê de benefício na escolha dele.
Acho que mais importante nessa história é lembrar do nosso papel na democracia, nosso papel cidadão. Quando a gente vota, a gente está dando nossa opinião no futuro de todos os 200 e tantos milhões de brasileiros, e não só no nosso. Então temos que votar pensando no coletivo, justamente. Sua vida só vai melhorar, de fato, se a vida de todo mundo melhorar também. Então, vamos falar, ouvir, debater e votar no que for melhor pra todo mundo, de todas as partes do Brasil, de todas as etnias, de todas as opiniões e orientações. Se você defende o interesse coletivo, você defende sua liberdade individual.
Em tempo: esse post não vale para a eleição ao governo do estado do Rio, onde qualquer uma das opções é tenebrosa. Nem adianta discutir a respeito.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Pandemia!

- Não vou poder ir hoje. Acho que estou doente.
- O que tem, rapaz?
- Sei lá, acho que estou um pouco febril, cheio de moleza. Deve ser alguma virose.
- Não é ebola não, né?
Enquanto a epidemia de ebola assustava o mundo, seletos hipocondríacos, paranóicos e piadistas de mau gosto estavam prontos a subverter a tragédia para suas perversões pessoais.
- Que ebola o que, é só uma virose. A pessoa com ebola não morre?
- Geralmente morre, eu acho. Sei lá.
- Então, não to achando que vou morrer não. É só um mal estar. Já tive gripes piores.
- Sei lá, hein. As vezes no começo é assim.
Como é de se esperar, a maior parte da população mundial não faz ideia de como é o ebola, nem os sintomas. Mas no meio do pânico que se difunde, qualquer coisa é suspeita, ou pelo menos vítima de piada sem graça.
- É sério, bicho. Tô meio caído, não vai dar pra ir hoje, mas não é nada grave. Só é melhor descansar hoje pra não dar mole, né.
- Eu acho que você devia ir ao médico. Seguro morreu de velho, não custa nada dar uma olhada.
- Mas eu tô só meio indisposto. Quero é dormir um pouco mais. Tenho certeza que mais tarde estarei melhor.
- Bom, sei lá. Eu não descartaria ebola assim.
Evidentemente a teimosia era fruto de desinformação ou de chatice. Qualquer um dos dois era desagradável.
- Num é ebola não, cara. É só algum resfriado chato. Eu vou ficar aqui tomando uma vitamina C e descansando, qualquer coisa te falo.
- Bom, tá bem. Tem certeza que não vai dar um pulo no pronto-socorro?
- Não acho que seja o caso não. Se amanhã não estiver melhor, eu vou no médico. Mas vai passar.
- Sei lá. Eu iria. Se for ebola, não vai passar não.
Evidentemente a teimosia estava começando a dar no saco e a paciência ia acabando.
- Que mané ebola o que, tá doido? É só uma febre. Pra pegar ebola não tem que ir lá na África?
- Eu acho que sim.
- Então, cara. Eu lá fui na África por acaso?
- Ah, mas você teve aquela reunião em Porto Alegre no começo do mês. De repente, no aeroporto, sei lá, hein. Eu acho melhor olhar. Se for ebola, é até perigoso pros outros.
Agora estava oficialmente irritante.
- Mas tu é chato, hein! Que ebola! O cara tá doente o você ainda fica criando dor de cabeça.
- Você não tava com dor de cabeça não?
- Agora estou!
- Ih, rapaz. Mais um sintoma aparecendo. Acho melhor a gente se previnir.
A essa altura, até o mal estar da virose já estava ficando imperceptível, em função da irritação crescente.
- Cara, eu vou ter que sair de casa doente e ir praí só pra te dar uns cascudos?
- Não faz isso não, ebola é altamente contagioso! Fica aí mesmo!
- EU NÃO ESTOU COM EBOLA!
- Ih, caraca. Está gritando, ficando delirante!
Nesse momento a raiva era tanta que não ocorria a ideia de simplesmente desligar o telefone.
- Eu tô é perdendo a paciência com você! Dá pra me deixar ficar doente em paz e sossegado aqui?
- Mas é isso mesmo. Fica aí. É melhor não sair, perigo de contágio. Vamos chamar as autoridades.
- Cara, eu vou sair doente mesmo pra ir te mostrar que não é ebola!
- Não, fica aí! Não vai pra lugar nenhum, eu já to ligando pra ambulância! Segura a onda!
O telefone desligou. Não mais que 10 minutos depois autoridades chegavam na porta do prédio, perímetros de isolamento foram traçados e uma ambulância especial fez o resgate. Após alguns dias de internação na ala especial de alto risco, saiu o resultado dos exames. Era só uma gripe. Ele saiu andando no hospital, pegou um táxi e foi bater no colega.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Redes sociais e o verdadeiro espírito do brasileiro

Eu me lembro, desde pequeno, de ouvir falar que o Brasil é um país livre de racismo. Que aqui nunca ocorreram as discriminações institucionalizadas da África do Sul e o dos EUA. No entanto, sendo branco, de classe média, sempre vi pessoas ao meu redor fazendo piadas, afirmações cretinas e tudo mais que se possa imaginar com relação a negros.
Eu também sempre ouvi que o Brasil era um país liberal, pra frente, de um povo feliz e receptivo, que aceita todos como são, não importa de onde são. Mas sempre em volta de mim ouvi piadas, ofensas e tudo mais sobre homossexuais, mulheres, nordestinhos e etcétera, além de outras brincadeiras do gênero.
E o lance é que tudo isso era normal. Essa diferenciação era normal. É o que hoje damos o nome de preconceito velado, e é algo que sempre esteve lá. E era velado por um motivo muito simples: negros e brancos dificilmente se misturavam, homossexuais precisavam se esconder, as mulheres se aquietavam entre suas famílias, os imigrantes nordestinos trabalhavam e depois sumiam para seus redutos, de forma que o homem branco heterossexual podia agir e falar como quisesse sobre o que quisesse. E era sim racista, homofóbico e preconceituoso, mas ele podia simplesmente dizer "não sou racista não, mas cá entre nós, preto é foda", que ninguém do seu meio o repreenderia e pronto: o brasileiro não é racista.
O que acontece é que carregamos dentro de nós o ranço herdado da escravidão, onde o negro está aqui para servir, apanhar e, principalmente, ficar quieto na sua. Vivemos um moralismo relgioso onde a igreja só trocou de nome, mas os valores de "defesa da família" continuam se metendo no foro privado, ditando as regras de como cada um deve viver a sua vida. E vivemos uma xenofobia cretina que culpa o imigrante do próprio país pela pobreza e miséria, mas aplaude de pé quando um europeu vem pra cá ocupar uma posição de trabalho de um brasileiro. E morte ou ostracismo a aqueles que querem ou precisam viver diferente. Lógico que isso não vale para o homem branco, que, casado ou não, pode comer todo mundo que está só fazendo seu papel social. Ou pode perfeitamente ser casado, ter filhos, ser pai de família, mas mesmo transando com outro homem em lugar escondido, poderá continuar exercendo sua autoridade de homem, contando que ninguém fale a respeito daquilo que ele realmente gosta. Ou pode defender a moral, os bons costumes e a família, a santidade do lar, mas passa a mão na bunda da empregada cearense quando ninguém está olhando e ameaça mandar ela embora se ela disser algo.
O negócio é que veio o século XXI, vieram as melhoras sociais, veio a inclusão de classes antes excluídas, mas principalmente, veio a Internet. E a verdade é que se tem algo nesse mundo que é democrático, é a Internet. Hoje estamos todos nela, hoje todos podemos dar nossas opiniões, todo mundo pode se informar e a Internet chegou, de fato, para todos. Pretos, brancos, homens, mulheres, heteros, gays e todo mundo mais.
Mais recentemente ainda veio outro fenômeno, o mais impressionante da nossa era: as redes sociais. As redes sociais jogaram pela janela todos (os últimos) paradigmas da comunicação que existiam. Mudaram a dinâmica com que nos comunicamos. Graças a Orkut, Facebook, Twitter e afins, conseguimos nos agrupar, encontrar novos e velhos amigos e trocar informações com uma rapidez impressionante. Não dependemos mais de periódicos para nos informarmos, agora postamos as informações nas redes e elas viajam em segundos por todo o mundo. A estrutura mudou a tal modo que os próprios jornais e revistas tiveram de correr para as redes sociais para conseguirem se manter atualizados e conseguirem manter contato com seus leitores. Do contrário, suas notícias simplesmente passariam desapercebidas.
E nas redes sociais a gente entende que todo mundo que está ali é "amigo" e pra amigo a gente pode falar o que realmente pensa. Então vai lá e solta que "viado é falta de porrada", "neguinho tem é que morrer", "são esses paraíbas que sujam nossas cidades" e "ontem comi a fulana, maior piranha". Só que o que a gente fala não para mais naqueles que estão imediatamente a nossa volta e você esquece que seu colega de trabalho, que é negro, vai ver. Ou seu primo que é gay, ou aquele casal nordestino que você conheceu quando viajou, e por aí vai. É esse o fenômeno que está vivendo agora, e que está provocando uma reação ainda mais absurda: ao invés do brasileiro se dar conta, nesse momento, de que se ele está ofendendo alguém, ele deve estar sendo preconceituoso, ele se sente privado do seu direito de falar. Afinal, ele sempre falou isso? "Eu não sou racista, pàra de me censurar", "eu não tenho nada contra gay, só acho que ninguém precisa ver isso, eles tem que ficar lá na deles" e por aí vai.
A internet, as redes sociais, as novas tecnologias estão nos botando em conflito porque estão mostrando nossa verdadeira cara e a gente não está querendo aceitar. Foi o que aconteceu no episódio da eleição, com um bando de preconceitusos culpando os nordestinos por um resultado que não os agradou. Sem aceitar que cada um pode votar como bem entender. Na cabeça desses imbecis, o nordeste votou como votou porque são feios, burros, analfabetos e tudo mais. Sem nem considerar a ideia de que se os resultados foram tão massivamente expressivos naquela região, talvez algo de bom tenha acontecido por lá. Mas não, eles são burros e sem cultura, porque não concordam comigo. E eu vou xingar no Facebook. Mas aí o xingamento tem reação, vira briga e eu me sinto ofendido, me sinto atacado. Talvez porque a reação me mostrou que eu não posso sair desmerecendo os outros assim, mas eu não quero perder minha liberdade de julgar os outros.
Não estou aqui pra defender nenhuma ideologia política. Vai ganhar quem tiver mais voto, ponto. Assim é a democracia. Você vota em quem você quiser, e se seu candidato perder, é porque a maioria não quis. Aceite. Se seu candidato ganhar, comemore. Mas independentemente de eleição, nós temos liberdades civis, individuais, que precisam ser respeitadas e ninguém tem o direito de xingar ou agredir as pessoas com quem não concorda. Todo mundo é livre pra ser como é e não precisa se esconder e não tem obrigação de engolir sapo quando for atacado.
O mundo mudou, as fronteiras es estreitaram e a divisão entre público e privado ficou bem mais tênue. Se você tem um iPhone no bolso e usa ele deitado na cama pra brincar no Facebook, então tem umas 300 pessoas deitadas na cama com você, te ouvindo. Tá na hora da gente começar a perceber que esse povo todo, na verdade, sempre esteve aí e tem os mesmos direitos que a gente. A única diferença é que agora todo mundo se fala, e se fala instantaneamente.
Se a gente quer sair dessa cultura de corrupção, de violência, de dizer "eita, paizinho de merda", a primeira coisa a fazer, a pedra fundamental dessa obra, é aceitar as pessoas como elas são e dar a todos os mesmos direitos. Se você desmerece alguém porque ele nasceu em outro lugar, porque ele pensa diferente, tem outra cor de pele ou porque não namora do mesmo jeito que você namora, então vai ser difícil mudar esse país.
Esse país, chamado Brasil, é feito de 27 unidades federativas e 5 regiões. Se tirar qualquer uma, nos diminui, faz a todos serem menos brasileiros. Nós somos mais de 200 milhões, somos gente de todas as cores, credos, origens, orientações sexuais e gêneros. E todos, cada um de nós, tem os mesmos direitos. Se um é oprimido, todos os demais, eventualmente, também serão. Já passamos por ditaduras, golpes, guerras civis e, principalmente, a escravidão, que já nos ensinaram, com muito sangue derramado, que segregar, perseguir e matar do nosso próprio povo só nos enfraquece.
E quem não concorda, favor discutir com a Constituição Federal. Foi ela quem disse que "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza".

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Primeiro de Outubro de 2013

Hoje, primeiro de outubro de 2013, a polícia desceu a porrada em muitos professores no centro do Rio de Janeiro, para que uma câmara de vereadores pudesse votar em paz o sucateamento da educação pública.
Hoje, primeiro de outubro de 2013, um inquérito indicia 10 PMs por sumirem com um pedreiro na favela da Rocinha, no mesmo Rio de Janeiro.
Hoje, primeiro de outubro de 2013, uma operação policial largou tiro pra tudo quanto é lado no complexo do Lins, no mesmo Rio de Janeiro, pra abrir espaço pra mais uma UPP que vai empurrar traficantes e cracudos pra longe da  "zona olímpica".
Hoje, primeiro de outubro de 2013, enquanto buscava informações, liguei a televisão e no intervalo da novela vi um pernambucano que quer ser presidente se vangloriar de conquistas políticas que não são dele e vi uma multinacional de cartão de crédito tentar emocionar num anúncio ufanista de copa do mundo e seleção de futebol. E fiquei com vontade de vomitar.

domingo, 3 de junho de 2012

Agonia dominical de Juca


Era uma manhã de domingo. Pra ficar mais deprimente, estava chovendo e frio. Pra ficar mais deprimente ainda, Juca só acordou as 10:30 da manhã. Quando viu o relógio despertador na mesa de cabeceira, pensamentos nefastos sobre a chegada da segunda-feira ocuparam a cabeça de Juca. E duas horas da manhã haviam sido perdidas dormindo.
Juca respirou fundo e levantou. Tentou pensar pelo lado bom. "Pelo menos estou bem descansado e posso aproveitar bem o domingo". Ainda havia esperança.
Ele levantou calmamente e olhou pela janela do quarto. A rua, que aos domingo já amanhece quieta, parecia morta. A chuva afastava as pessoas e até o bar da esquina, que normalmente a essa hora já estaria acendendo a churrasqueira enquanto os primeiros fregueses chegariam, estava vazio. De longe Juca conseguia ver a cara de desapontamento do português em pé no balcão, tomando sozinho uma dose.
"A tristeza do domingo não vencerá!", Juca pensou. Foi preparar seu café. "Todo bom dia começa com um bom café". Ele resolveu que merecia um café da manhã digno de hotel: ovo mexido, torrada, presunto, queijo, café preto e suco de laranja. E o resto daquele bolo que comprou na padaria, na quinta-feira. Café de domingo tem que ter bolo!
Juca preparou tudo, sentou a mesa e comeu toda a parte salgada. O suco de laranja era de caixinha e já não estava muito, aberto há alguns dias, mas deu pro gasto. Agora era o grande final: o pedaço de bolo com cobertura de goiabada. Estava guardando aquela fatia justamente para um momento de necessidade como esse. Abriu o armário, pegou o potinho que guardava o doce. Sentou na mesa já mais contente, só pela antecipação. Tirou a tampa do pote e veio a decepção. O bolo estava tomando de formigas. "Maldito domingo".
Juca jogou o bolo fora, xingando a si mesmo por não ter guardado na geladeira. Respirou fundo. "Ainda tem muito domingo pra aproveitar, nem tudo está perdido¨. Foi tomar seu banho e sair pra rua. Ficar em casa domingo é enlouquecedor.
Já era quase meio dia quando Juca chegou no bar. Havia antes passado no jornaleiro. Como estava chovendo, o movimento foi pequeno e mesmo chegando tarde, conseguiu comprar uma edição do jornal, que normalmente essa hora já estaria esgotado. "Estou até com sorte", pensou.
- Bom dia, Seu Manoel! Já tem bolinho de bacalhau? 
- Não senhoire. Não fritei. Não tem ninguém aqui pra comer.
- Então prepara um pra mim que agora já tem freguês!
- Um? O senhoire quer que eu encha a frigideira de azeite e suje a cozinha toda pra fritar um maldito bolinho?
- Mas Seu Manoel, eu sempre como um bolinho e tomo uma cachacinha pra abrir o apetite pro almoço. É o que faço todo domingo.
- E eu sempre frito uma porção de manhã porque tenho vários fregueses que fazem a mesma coisa que o senhoire. Mas hoje ninguém veio. Se o senhoire quiser mesmo, eu frito uma porção.
- Ai, tá bom, Seu Manoel. Frita uma porção, eu como um. Embrulha o resto que eu congelo em casa e como outro dia.
- Não senhoire! O senhoire vai comer aqui. Bolinho de bacalhau depois de frito tem que comer.
- Mas Seu Manoel, como eu vou almoçar depois de comer uma porção inteira de bolinho?
- É uma porção pra agora ou nada.
- Tá bem, Seu Manoel. Então frita a porção e ao invés de cachaça, tira uma garrafa de cerveja pra mim, pra ajudar a descer esse bolinhos todos.
Juca se entalou de comer bolinhos, que naturalmente no final já estavam frios e borrachudos. Pelo menos aproveitou pra ler o jornal ali. Não fosse isso, nem ia ter com quem papear, sem outros fregueses no bar e o português de mau humor. Pagou a conta pro português e foi embora. 
Saiu pra rua e se deu conta que estava completamente sem fome. Se não tinha fome, não fazia sentido esticar no restaurante a quilo na outra rua pra almoçar. E se não ia almoçar, não ia ter mais nada pra fazer na rua e ia ter de voltar pra casa. E se voltasse pra casa agora, não ia ter nada pra fazer em casa também, até porque já tinha lido o jornal inteiro. E chegar em casa e ligar a TV é depressão dominical demais.
"A locadora! A locadora de vídeo ainda deve estar aberta!" - Juca correu desesperado, a locadora fechava as 13hs aos domingos. Faltavam só 10 minutos. Passou pela porta da loja esbaforido, quase gritando:
- Dona Joana, já fechou???
- Calma, Seu Juca. Se o senhor passou pela porta, é porque ela está aberta, né. Se bem que do jeito que o senhor passou, ia atravessar ela fechada mesmo.
- Desculpa. É que me dei conta que já está na hora de fechar e preciso pegar um filminho pra assistir. Tarde de domingo, sabe como é, né.
- Lógico. Só que essa hora de domingo, os lançamentos estão todos alugados já. Sabe que de sexta a noite já não sobra muita coisa. Domingo de manhã o que sobrou vai embora. Mas no começo da semana retornam tudo.
- Tudo bem. Eu vou achar alguma velharia que ainda não assisti.
Não era fácil. Como Juca era muito sozinho, passava bastante tempo assistindo filmes. Gostava muito de terror e policial. Mas achar algo antigo bom nesse gênero já não é muito fácil, afinal os efeitos especiais antigos já não tem mais graça. Juca procurou, procurou, não achou nada interessante. Pegou um filme que nunca ouviu falar antes, com vários atores desconhecidos. Fazer o que, era o que tinha ali.
Voltou pra casa, trocou de roupa, botou o pijamão, colocou o dvd no aparelho e foi se distrair com o filme. Mas lógico que depois de comer uma porção de bolinhos de bacalhau e tomar cerveja, não conseguiu ver nem dez minutos do filme e caiu num sono entorpecido de tarde de domingo. Juca roncou por um tempo que não conseguiu nem perceber. Quando abriu os olhos, viu a tela da TV mostrando de novo o menu principal do DVD. O filme inteiro tinha passado e Juca dormiu o tempo todo. Olhou pela janela e a depressão de domingo bateu forte. Já estava escurecendo.
- Dormi a tarde toda! - reclamou sozinho.
Desanimado, levantou e foi lavar o rosto. Viu o relógio, já eram quase 18 horas. Já mais desperto, percebeu que estava com fome, o que era de se esperar, visto que não havia almoçado direito. Já de mau humor, desistindo de fazer um domingo agradável, passou um café e jogou uns pães de queijo congelados no forno. Resolveu tentar ver o filme de novo enquanto lanchava, afinal já havia dormido bastante e não iria pegar no sono. Também não tinha nada muito mais interessante pra fazer mesmo.
Depois de uma hora e meia na frente da TV, entendeu por que dormiu tão rápido. O filme era chato demais. Pelo menos matou alguma tempo, mas agora não eram nem 20hs ainda. Claro, estava sem nenhuma esperança de ter sono cedo pra acabar logo com esse domingo e não restava mais nada senão a maldita programação de TV. 
Juca passou as últimas horas do domingo assistindo ao entendiante mundo das celebridades, ao jornalismo sensacionalista e aos quadros de humor mais sem graça capazes de ser produzidos. E nada do sono chegar. O relógio se arrastava por horas intermináveis e Juca só começou a sentir sono perto das duas da manhã, quando começava a famosa sessão de filmes antigos da TV. Pegou no sono no sofá mesmo.
As 7 da manhã de segunda o despertador gritava. Juca acordou resignado. Pelo menos a agonia havia terminado e a vida ia pro ritmo normal. Passou em frente a janela, olhou pra fora e viu que continuava chovendo. E a rua estava estranhamente morta, sem movimento. "Ué, cadê o trânsito da segunda?"
Um desespero bateu em Juca. Ele correu para o calendário e constatou o pior. Ele havia esquecido, mas essa segunda era feriado.
- Ai, não! Outro domingo!



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